Para uma Ecologia dos Ambientes Institucionais

16 de Junho – 17:30

Conferencista: Professor Viriato Soromenho-Marques

Professor Catedrático de Filosofia na Universidade de Lisboa

Comentador: Professor Paulo Ferrão, IN+ , Programa MIT-Portugal

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Viriato Soromenho Marques pronunciando a sua conferência.


Outro momento da conferência de Viriato Soromenho Marques.


Paulo Ferrão no exercício de comentador da conferência.

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Enquadramento da conferência na temática do Ciclo

Os projectos para criar “inteligência artificial” começaram por ser dominados pela ideia de que a inteligência está “dentro da cabeça” de um agente individual com capacidades superlativas de racionalidade calculadora. Isso equivale a três grandes esquecimentos da Inteligência Artificial clássica: o esquecimento do corpo, o esquecimento dos outros, o esquecimento do mundo. Esquecimento do corpo, porque sobrevaloriza o cérebro (artificial) como centro de comando, dando insuficiente atenção às dinâmicas corporais (percepção e acção, nomeadamente). Esquecimento dos outros, porque se concebe a inteligência em termos individuais (cada agente calcula isoladamente tudo o que há a fazer, com um investimento insuficiente na coordenação e mesmo cooperação com os demais agentes). Esquecimento do mundo, porque o agente é concebido para funcionar como se toda a inteligência estivesse nos próprios agentes, quando o nosso mundo (físico e social) tem vindo a ser estruturado ao logo de séculos por antecessores que o foram adaptando às necessidades e características da nossa espécie e ao nosso modo de vida, de tal modo que a sua organização e os instrumentos nele presentes contêm inteligência acumulada que deve ser tida em conta por agentes verdadeiramente inteligentes.

Contudo, mais recentemente surgiram novas abordagens ao problema da inteligência artificial. Por exemplo, temos robótica colectiva (vários robots a operar em conjunto), onde as tarefas e o cálculo são distribuídos pela “equipa” e onde a interacção entre os vários “agentes” é crucial. Aí já se tem em conta o “corpo” (a parte física do robot, sensores e actuadores), os outros (há “equipas” de robots) e há um contacto directo com certos aspectos do mundo físico. Mas a robótica, mesmo estas experiências mais avançadas, ainda tem dificuldades em pensar a inteligência acumulada no mundo: a inteligência que existe incorporada na organização material do mundo (a rede de estradas faz com que na maior parte dos casos não tenhamos de fazer grandes cálculos para determinar um percurso) e na organização social (não estamos constantemente a calcular o que fazer nesta ou naquela circunstância, muitas vezes apenas seguimos convenções ou normas em vigor na nossa sociedade).

Ora, está actualmente em desenvolvimento no ISR/IST uma abordagem à robótica colectiva que, procurando valorizar esses aspectos, assenta na ideia de que um “ambiente institucional” pode representar parte significativa da “inteligência acumulada” de uma comunidade: aquilo que a comunidade foi construindo como conjunto de soluções para lidar com os seus condicionalismos e objectivos. Isso inclui instituições formais, organizações, normas, convenções, “visões do mundo” ou “ideologias”, por exemplo. Falamos de “ambiente institucional” para referir o conjunto de formas de coordenação (instituições) de que uma dada sociedade se dotou para que a actividade dos indivíduos seja, além de compatível com a sobrevivência da comunidade, convergente para a prossecução de objectivos comuns.

Uma questão central nesta visão é o tempo. A acumulação de experiência colectiva no “ambiente institucional” faz-se lentamente, geração após geração. Nem tudo o que acumula resultou de deliberação explícita: há normas, ou convenções, ou até organizações, que “emergem” de forma não planeada. Não é possível mudar tudo de um momento para o outro, até porque se pode destruir em pouco tempo o que levou muito tempo a burilar – e talvez nem sempre seja possível recuperar posteriormente certos erros de “rearranjo institucional” apressado. Muitas vezes é difícil antecipar todas as consequências de modificar o ambiente institucional, os riscos de desequilíbrio. Mas isso não deve querer dizer que nada pode ser mudado…

Na economia do Ciclo, esta conferência foi concebida para aprofundar esta problemática a partir de um possível paralelo entre “ambiente natural” e “ambiente institucional”: se o ambiente natural precisa de ser compreendido para ser respeitado, e para não sermos tentados a fazer com ele tudo aquilo que as possibilidades técnicas permitem, não haverá essa necessidade também perante o “ambiente institucional”? Se o ambiente institucional é, até certo ponto, o resultado de uma sedimentação da experiência passada das nossas comunidades, não temos também de ter cuidado com os efeitos perniciosos que poderão ter acções que desgastem esse património? O que podemos aprender, a esse propósito, do que sabemos acerca de civilizações desaparecidas?

O conferencista, Viriato Soromenho Marques, Professor Catedrático de Filosofia da Universidade de Lisboa, é reconhecido tanto pela sua investigação em Filosofia Política como pelo seu envolvimento cívico nas questões ambientais a nível nacional e a nível internacional. Em qualquer desses domínios tem demonstrado uma significativa capacidade para aliar o trabalho de fundamentação teórica ao empenhamento em causas. É, também por isso, uma escolha particularmente apropriada para nos proporcionar esta reflexão acerca das potencialidades e dos limites do paralelo entre “ambiente natural” e “ambiente institucional”.

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Pode visualizar aqui a apresentação que acompanhou a conferência: viriato-s-m-lisbonist-ecology-of-institutions-16062008

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